terça-feira, 16 de agosto de 2011

O NOME DE UMA LENDA VIVA DA MÚSICA CONTEMPORÂNEA: RZEWSKI

Lane Valiengo

             Atenção!

         Este texto é totalmente inédito: é o único registro da presença em Santos de Frederic Anthony Rzewski, um dos principais nomes da música erudita contemporânea, em 1989. Compositor brilhante, magnífico pianista, altamente politizado, preocupado com as questões sociais e dono de um bom humor insuperável. Os temas de suas composições geralmente partem de fatos sócio-históricos, dentro de uma consciência política aprofundada. Um homem do mundo, um intelectual de vanguarda, que veio participar do célebre Festival de Música Nova, criado e organizado pelo santista Gilberto Mendes.
         Esta matéria seria publicada por um grande jornal conservador. Mas os cortes na versão original seriam tantos - e tão absurdos - , que o autor preferiu não publicar coisa alguma. A alegação para a exclusão dos trechos censurados foi a de que o tom era muito político. Mas não eram tempos para ser político? E foi por isso que ninguém ficou sabendo quais eram os pensamentos e os posicionamentos de Rzewski.
         Muita coisa se passou desde então – a conversa com o compositor ACONTECEU quando faltavam alguns meses para Fernando Collor se eleger Presidente do Brasil. Basicamente, contudo, as condições estruturais, culturais e ideológicas não mudaram tanto assim. Basta dizer que o Festival de Música Nova corre, em 2011, o sério risco de não acontecer mais. Nunca mais.
         Chegou o momento de tirar esse peso dos ombros e de dar de ombros diante do jornalismo obtuso.
         Conheça, pois, o grande Rzewski, o nome do gênio.

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1

        Foi acontecendo assim: uma lenda começou a tomar forma assim que subiu ao palco. Lenda feita de música, de ideologia, de humildade. Lenda que tem nome, tem rosto e uma expressão amistosa nos olhos. Além de tênis azuis nos pés. A lenda tem o nome de Frederic Rzewski (pronuncia-se “zhef esqui”), um dos maiores pianistas do mundo, um dos grandes compositores eruditos contemporâneos. Aliás, erudito é um termo pequeno para tamanho talento. Um daqueles raros gênios americanos, descendente de poloneses, que cultivou o bom senso de viver na Europa, mais precisamente na Bélgica.
        Pois essa lenda esteve aqui mesmo em Santos, na noite de 14 de agosto de 1989, uma quinta-feira que ele transformou em pura arte e magia. Era possível sentir que as notas que vinham do piano eram palpáveis, tinham vida própria, de verdade!
        Rzewski veio para tocar no Festival de Música Nova, que o sempre paciente e sempre lutador Gilberto Mendes continua organizando (nota: era a vigésima sétima edição). Rzewski tocou como nunca mas poucos perceberam, poucos ouviram, os tolos.
        A arte unida jamais será vencida...               

2

        Trata-se de um mito da música contemporânea, da música da nossa era, nossos tempos. Da música nova, da música toda. E é um mito também para as cabeças um pouquinho, ao menos, politizadas. Assim como os velhos esquerdistas, tão cientes de suas crenças ideológicas. Ou os humanistas, os pacifistas, os verdadeiros socialistas e outros mais. Poucos, é verdade.
        Rzewski politizou o piano. Junto com outros artistas também conscientes, outros verdadeiros artistas, engajou-se no sonho mais belo e importante que existe, que é o sonho de acreditar que o mundo pode mudar, pelo menos um pouco que seja. Um sonho que habitou a cabeça de muita gente na agitação total dos anos 60.

3

        Mas vamos parar de falar em mitos e lendas. É que esse mito em particular é uma pessoa muito simples e modesta, que não precisa de endeusamentos artificiais. Não, ele nunca será uma estrela (“Of course I’m not a star!) cheia de exigências e mau humor. Não, isso não é com ele. Talvez não passe de um velho hippie aposentado. Ou talvez um anarquista completo, sempre de bom humor. Talvez. Mas certamente é um outsider. Do contrário, não aceitaria vir ao Brasil ganhando um cachê pequeno, concordando com as condições modestas que o festival oferece. E sem reclamar de nada, nadinha, para ele tudo estava sempre okay, okay...
        É bem como comentou o Gilberto Mendes: gente de esquerda é outra coisa...

4

        Este que é um dos grandes pianistas do mundo tocou no Teatro Municipal uma única música, composição sua: 36 Variations on the Sergio Ortega Song “El Pueblo Unido Jamás Será Vencido”, aquele hino popular de milhares de passeatas. Intrigante, muito intrigante...
        As Variações duram nada menos que uma hora. Uma hora inteirinha, um fôlego só, sem parar, sem intervalo algum, só música, só climas e notas se alternando. Uma hora...
        As Variações de Rzewski já ficaram célebres, comparadas em importância, criatividade e virtuosismo às famosas “Variações sobre uma valsa de Diabelli”, de Beethoven. A comparação tem procedência: ambas são imensos desafios pianísticos e estilísticos.

5

        As notas transbordam, contando durante uma horinha toda a história da música ocidental. Ou melhor, recontando a história, destruindo tudo e reconstruindo em seguida. Sob a forma de uma música poderosa, conta-se a história de todos os povos oprimidos da face da terra.
        As Variações têm a sua história própria: foram compostas para o bicentenário da Independência norte americana. Rzewski recebeu a encomenda de um jovem pianista, ao lado de outros duzentos compositores.
        Ele pensou: eis aqui uma boa oportunidade para despertar consciências. A data comemorava a independência de um pequeno país, na época em que se livrava de uma nação poderosa, a Inglaterra. Pois o pequeno país de antes, os Estados Unidos, cresceu muito e em 1976 fazia a mesma coisa, dominando econômica e culturalmente uma pequena nação, o Chile. Inclusive participando ativamente da derrubada do Presidente Salvador Allende e colocando no poder o ditador Pinochet, que tantas desgraças promoveu.
        Rzewski recorda: em Roma, por exemplo, aconteciam manifestações gigantescas de solidariedade ao povo chileno, mais de cem mil italianos nas ruas. Em Nova Iorque, nada, só silêncio. Os jornais não diziam nada, as pessoas ignoravam. "Eu pensei: talvez seja possível alertar as pessoas, através da música. Existem muitas pessoas sensíveis nos Estados Unidos. Talvez seja possível introduzir o problema através das salas de concerto, começar a discutir a questão da democracia no Chile. E aí eu fiz as Variações sobre a música do Ortega, meu amigo particular, um esquerdista de verdade, radical. E foi eficaz, a peça foi escrita diretamente para o público americano de música erudita e as pessoas me procuravam, dizendo que nada sabiam sobre o Chile. E então elas começaram a pensar...".

6

        Constatação pertinente: Sérgio Ortega já tentou levar Rzewski várias vezes ao Chile, em vão. "Não irei enquanto não acabar a ditadura". (nota: a ditadura acabou em 1990).

7

        Outra constatação: Rzewski definitivamente tirou a virgindade do novo piano do Teatro Municipal, um Stenway de 23 mil dólares. O que ele aprontou naquela meia cauda...
(nota necessária: o jornal censurou a palavra virgindade...).

8

        Cena pré-concerto: para evitar qualquer mal entendido, humildemente ele avisa que, depois que terminar sua apresentação, não assistirá à segunda parte (era o Duo Diálogos, de percussão). Preferia ficar ali no bar do teatro, tomando uns drinques. Aviso que ali, uma pequena cantina, não há drinque algum. Cerveja também não, nenhuma bebida alcoólica. Ele reage, fazendo careta: "Molto grave...".
        Condoído, expliquei (ah, esse meu maldito inglês, incompleto e enferrujado...) que do outro lado da rua, ali na Pinheiro Machado mesmo, atravessando o canal, havia um bar.
        O rosto largo de descendente de poloneses virou um sorriso só. O aviso foi definitivo: "É ali que estarei...".

9

        Cena pós-concerto: ali naquela cantina que não servia drinque algum, o grande pianista brinca, apontando para a garrafa de Coca-Cola nas mãos do Secretário de Cultura, Reinaldo Martins, como se dissesse: "que bonito, não??? Ele ri e diz "Beba Coca-Cola, sim...". Trata-se de uma referência à célebre peça composta por Gilberto Mendes, exatamente a "Beba Coca-Cola".
        Minutos depois, é o próprio Rzewski que está com uma Coca nas mãos, geladinha. "Ah ah!", acuso. Ele balança os ombros antes de ironizar: "Like monkays... Gilberto mandou, a gente bebe... Como se fala monkays aqui? Macacos? É, como macacos...".

10

        Para conversar e se fazer entender, ele vai inventando na hora (graças a Deus!) um rápido dialeto que mistura palavras e expressões em inglês, italiano, espanhol e até português, com a preciosa ajuda de um pequeno dicionário de bolso, capa amarela, português-inglês. E assim vamos nos entendendo.
        "Em one month... como é month? Mês? Em um mês eu conseguiria aprender português. Mas só quatro dias não dá...
        Não dá mesmo. Mas o que importa?

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        Cena pós-Variações: impressionado com a performance de Rzewski, um estudante de música se aproxima e pergunta: quantas horas por dia você estuda?
        Ah, pra que?
        A reação é séria, sem deixar de ser também hilariante: "Estudar? Não estudo nada. Se possível, procuro tocar sem estudar... Não amo estudar, tento estudar o mínimo possível, é a atividade mais estúpida que existe...".
        Ele move as mãos, vive e representa o que fala, mexe o corpo todo. Um pianista com expressão corporal impecável. "Não é uma virtude isso de trabalhar, trabalhar, trabalhar... Isso é um pensamento religioso protestante muito idiota, é repressão... Virtude é uma palavra masculina, vem do latim, nossa cultura é toda baseada nesse machismo besta... Basta! Agora, precisamos trazer as qualidades femininas para a cultura, a suavidade, a beleza... Trabalho demasiado, produção, produção, isso é repressão! No! Chega!".

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        Uma cena muito particular: lá está um dos maiores pianistas do mundo atravessando a pontezinha do Canal 1, indo para o Bar Lanus, barzinho de quinta categoria, porém muito animado. Provavelmente, a presença de Rzewski foi o momento mais glorioso de toda a existência do Lanus...
        Quem se importa?
        A mesma glória que sentiu um repórter maravilhado, pronto para a conversa-dialeto.

13

        Rzewski, o polêmico, vai falar sobre música, entre uma cerveja e mais outra cerveja: "Gosto de New Music, Música Nova. Ela é a continuidade da música clássica, é a música de hoje. Os grandes compositores do passado estão mortos, por isso é que devemos tocar a música de hoje. Isso de ficar tocando música de quem já morreu há cem, duzentos anos, não é tradição, é aberração!".
        Atenção, senhores, quem falou isso foi um dos maiores intérpretes de Beethoven dos tempos modernos...

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        Tem mais: "Mas eu gosto também de jazz, música africana, Fela Kuti. Gosto de música country, de rock... eu gosto do Sting... Em São Paulo fui ver o Cecil Taylor tocar, o free jazz dele eu gosto bastante. O que eu não gosto é de música séria. Quanto mais séria ela é, mais cômica ela fica, Não pode ser séria...
        "Concerto sinfônico eu não gosto, é uma cultura de intimidação, o chefão lá na frente da orquestra, mandando, essa coisa Van Karajan... O ditador na frente, mandando, não gosto mesmo".
        E o copo esvazia, enche, esvazia, enche... seis cervejas em apenas quarenta minutos...

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        É hora da pergunta crucial: você é um homem de esquerda mesmo, não?
        Antes de responder com palavras, balança os ombros, faz que sim com a cabeça várias vezes. "Sim, naturalmente. Não compreendo porque é uma coisa que chama a atenção, um compositor que faz músicas políticas, apontam na rua, acusam, é comunista, comunista! Ora, para mim é uma coisa normal! Todos os escritores falam de política, por que não os músicos?
        "Não é uma coisa abstrata, é natural falar de vida, de muerte, de amor e... de política!".
        E sobre nós, pobres mortais abaixo do equador?
        "Não sei nada sobre a política no Brasil, estou tentando entender", diz, para em seguida rir gostosamente. "Sei que vocês terão eleições em novembro e que um senhor Collor é o favorito, não? Mas parece que este senhor não é muito colorido, não?"
        Quando explico que Collor é o representante do poder econômico e das forças reacionárias, Rzewski não se surpreende: "Sim, naturalmente, é claro...".
        No rosto, aquela compreensão de que as coisas não mudam assim tão fácil. E que o poder econômico age igual em todo o mundo, só muda o nome da moeda e o tamanho da ganância.
(nota: todo este trecho também foi censurado...).

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        Senhores e Senhoras, agora vamos respeitosamente às impressões de um turista ocasional mas muito atento: "O que vi difere muito da expectativa que eu tinha. Esperava um País pobre, estou surpreso, encontrei um País rico! Não esperava ver estes grandes shoppings centers. Sabia das favelas mas não da riqueza que também há. Estou molto impressionato!"

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        Nos detalhes, Rzewski mostra como aos poucos vai entendendo o Brasil, a partir de observações simples: "Esperava ver mais gente fumando charutos nas ruas. Adoro charutos. Mas não há, foi uma surpresa. Comprei charutos de manhã, em Salvador, mas são muito caros, NCZ$ 55,55 (nota: cruzados novos...) por uma caixa com dez, very expensive! Eu compro charutos brasileiros na Europa bem mais barato! Eu não entendo isso... O café também, o café brasileiro exportado para a Europa é mais barato lá do que aqui! E o sabor é muito melhor do que esse que vocês bebem aqui...".
        Eis aqui a demonstração prática de como um famoso pianista entendeu o que é viver no terceiro Mundo e ser vítima da exploração econômica nos próprios produtos que fabricamos...
        Rzewski não deixa de observar: "Mas aqui é o país da Volkswagen...".

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        Rzewski nasceu em 13 de abril de 1938, em Massachusetts. Mora em Bruxelas, num pequeno apartamento equipado com um piano japonês Kawai. Vive entre a América e a Europa. Vive com Françoise, atriz de teatro belga. E tem filhos com outra belga, que mora em Roma.
        Conheceu o santista Gilberto Mendes pessoalmente em 1986, no Festival de Patras, Grécia. Mas já conhecia, e bem, as peças do nosso compositor de cabelos brancos. "Gilberto é uma pessoa muito simpática, muito simples, but...". Ele bate o dedo indicador na cabeça, indicando: Gilberto tem cabeça, muita capacidade...

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        Rzewski só não se entendeu mesmo foi com a nossa moeda: "Como é que pode um simples cafezinho custar 650 mil? Sim, eu sei que é preciso cortar os zeros, intelectualmente até entendo. Mas na hora de pagar, me atrapalho todo, é muita confusão...".


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        Cidades: gosta de Tokio, Moscou, Nova Iorque, grandes metrópoles, pode-se conhecer muita gente nas grandes metrópoles, diferentes tipos de pessoas. Achou São Paulo muito parecida com Nova Iorque. Mas admite: as grandes metrópoles não são boas para se viver durante muito tempo.
        Não conhece Santos, ficou aqui apenas uma noite, nem viu o mar. Mas sentiu que as pessoas são mais abertas e alegres do que os paulistanos (nosso ego respeitosamente agradece...).

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        Considerações finais: a cerveja brasileira não é bad, mas não se compara à belga, "a melhor do mundo". Queria porque queria provar a comida brasileira, até aprendeu a soletrar, "feijoada...". Mas se contentou com um viradinho à paulista ali mesmo no Almeida velho de guerra.
        Gostou e repetiu.
        Pronto, a lenda foi embora, foi tocar em outros lugares, conhecer outras pessoas, fabricar novas músicas, falar de política. E de charutos. Saibam todos que aquela quinta-feira foi única e talvez nunca haja outra igual: foi uma das maiores e mais importantes apresentações de música acontecidas em Santos, em todos os tempos.
        E lembrem-se: a arte unida jamais será vencida. Foi Rzewski quem garantiu...

O NOME DO CAMINHO MÍTICO


Lane Valiengo

         A colonização do Estado de São Paulo, de boa parte do Brasil e também da América do Sul, deve muito ao Peabiru, histórica e quase lendária estrada que ligava o Litoral à Vila de Piratiniga, no Planalto. Este caminho, que começava nas praias e atravessava a Serra do Mar, seguia em frente, acompanhando o leito do Rio Tietê, embrenhando-se pelo Paraná até chegar aonde hoje está Assunção, a capital do Paraguai. Ali, ligava-se à outra estrada, chegando até Cusco, no Peru, unindo o Litoral Paulista à capital do Império Inca.
         Se não houvesse o Peabiru, a Vila não seria fundada e provavelmente não haveria hoje a cidade de São Paulo, pelo menos no local atual.
         Quando Martin Afonso, após passar por Cananéia, decidiu se fixar em São Vicente, fundando a primeira vila do Brasil, já sabia da existência desta estrada. Mas antes, realizou a primeira “eleição” das Américas, constituindo a Câmara de São Vicente. Depois, foi ver aonde levava aquela estrada. Foi João Ramalho, líder dos homens brancos do Planalto, quem o levou a percorrer o Peabiru, para que conhecesse os campos de Piratininga, aonde vivia o cacique Tibiriçá e sua filha Bartira, personagens marcantes da história do Brasil.
         Quando São Paulo começa a se firmar, o primeiro governador geral, Tomé de Souza, por uma questão de segurança, mandou fechar a estrada.
         Talvez tenha sido um terrível erro estratégico, especialmente porque cortou o contato da gente paulistana - e litorânea, também - com os incas. Nossa história poderia ter sofrido mudanças no mínimo impactantes se o Peabiru permanecesse.
         O traçado do caminho, segundo historiadores, teria sido determinado pelo Pai Sumé, um europeu que seria uma espécie de divindade na terra. Os jesuítas acreditavam que poderia tratar-se do Apóstolo Tomé, o São Tomé. Para “Sumé”, seria apenas uma adaptação linguística.
         Pesquisas de arqueólogos brasileiros tentam identificar ao menos alguns trechos do Peabiru, ou “Caminho das Montanhas do Sol”. Existem relatos de que algumas pegadas de Sumé ficaram gravadas em pedras, em São Vicente e em Santos, no trecho aonde havia uma fonte, no Embaré.
         Trata-se de que uma página valiosa dos primeiros tempos da nossa história. E que merece ser ao menos registrada e contada.
         A trota perdida do início de tudo, no Brasil, era também alcançada a partir de Cananéia e do Porto dos Patos, em Santa Catarina.
         Bem que poderiam ser desenvolvidas pesquisas sobre o “Peabiru”, inclusive com a fixação de marcos em locais prováveis, assinalando a existência desta estrada, dentro de concepção que deixe claro que a Ilha de São Vicente não apenas foi responsável pelo início do Brasil mas, também, levou através do Peabiru a colonização e o desenvolvimento econômico/comercial ao restante do País.
          Em busca da “Terra do Sol” existente do outro lado das “Montanhas” (a Serra do Mar e os Andes), restaram apenas sonhos. E lendas.
         Seu nome, Peabiru, significa em tupi-guarani, "caminho" (pe) "do gramado amassado" (abiru), pois era ponteado por certa erva miúda. Pesquisas históricas estimam que o caminho poderia ser utilizado nos anos 400 ou 500 D.C. Como prova da presença dos incas, existiam  "pedras orientadas, de uso astronômico, e de relógios solares". Seria uma ferramenta para uma futura projeção dos incas sobre o Oceano Atlântico.
         O Império Inca chegou a se estender por sete países, como conhecemos hoje as terras então sob seus domínios.

Os nomes dos sons da cidade


Lane Valiengo

   A cidade é a soma de suas lutas e culpas, escreveu o poeta. Poderíamos acrescentar que é também a soma de seus ambientes, seus sons e seus silêncios. Pois, de repente, podemos descobrir que é possível conhecer a cidade e a sua alma ouvindo os seus sons.
        A Santos que a maioria conhece é ainda mais ampla do que poderia supor a nossa inocente e surda consciência. A cidade é muito sonora. Só precisamos saber ouvir.
        Escute o som que vem do barracão comunitário da Vila Gilda, som forte e pulsante do Projeto Arte no Dique, que nos faz lembrar que as comunidades carentes precisam ser vistas e ouvidas, sempre, pois elas têm pressa em superar as suas dificuldades e abrandar as suas necessidades.
        O nome do som é resistência, inclusão, batalha e cultura.
        O som dos grandes e poderosos caminhões e carretas que chegam ao Porto, afundando as ruas e poluindo nosso caro oxigênio, mostrando que é justo o som da gritaria de todos os que pedem um grande estacionamento, para ordenar um pouco esse caos. O que se ouve é o som surdo das políticas de transporte...
        O nome do som é descaso, urgência, solução.
        Os sons dos sinos históricos e coloniais da Igreja do Valongo, monumento vivo a provar que a fé ainda resiste e persiste.
        O nome do som é memória, história, convicção.
        Os sons do apito dos grandes navios lembram que ainda falta muito para nos livrarmos da dependência externa mas estamos no bom caminho. E ao mesmo tempo falam diretamente ao espírito de aventura, ao contato com o oceano, com os povos distantes. São sons que falam da nossa história, pois a cidade existe por causa de seu Porto. E os sons das águas batendo nas pedras do cais não nos deixam esquecer nunca as nossas origens.
        O nome do som é comércio, é turismo, é cidadão do mundo, é história, é evolução econômica, é crescimento.
        Os sons que vêm ali da Vila Belmiro atestam que sempre seremos os melhores de todos os tempos, e que sempre mostraremos ao mundo os Robinhos, os Neymares, os Gansos.
         O nome do som é paixão, é gol, é arte, é espetáculo, é o jogo da vida.
        Os sons da fala alta, quase gritada dos corretores de café na Rua XV de Novembro, os sons da natureza no Iriri, Cabuçu, Monte Cabrão, Ilha Diana, Caruara, Vale do Jurubatuta, todos na Área Continental, aonde mora o futuro. Os cantos dos pássaros no Vale do Quilombo, o tilintar do bonde turístico, memória cotidiana revivida. Os sons metálicos dos cabos de aço puxando o funicular do Monte Serrat, os sons das promessas sendo pagas nas escadarias que não terminam nunca. Os sons que não se ouvem mais do relógio da torre da Western, os sons dos trens que ainda insistem em varar a noite, cruzando a cidade. Os sons do grito abafado de quem morre nas mãos de uma violência crescente e sem sentido. Os sons dos protestos das mães sem creches, dos sem teto, dos sem esperança, os sons das mazelas das favelas.
        Os sons alegres das noitadas no Centro Histórico e suas mil baladas e seus mil imóveis que costumam desabar. Os sons de quem acampa, prega e protesta na Praça Mauá, com seus megafones e altofalantes, suas demandas e suas ideologias, seus pedidos de mais participação, mais comida e mais democracia.
        Os sons dos lamentos de quem procura emprego decente, o som bravo de quem não consegue ver cumprida a promessa de se acabar com os cortiços. E os sons traiçoeiros da maré alta provocando eternos alagamentos na Zona Noroeste.
        Os alaridos das comemorações e reivindicações na Praça da Independência, os sons dos escapamentos de um trânsito que não para de crescer e de congestionar as nossas vidas. Os sons carnavalescos que renasceram longe das praias. Os sons que não se escutam mais que vinham do presídio e cortavam o ar da Avenida São Francisco como punhais envenenados.
        Os sons de quem caminha com pressa sobre os atracadouros das barcas para Vicente de Carvalho ou o som conformado de quem se espreme nos ônibus poucos que nos oferecem. Os sons ecoando na memória das greves portuárias, da recusa em embarcar as cargas nos navios espanhóis, os gritos de o petróleo é nosso e queremos nossa autonomia de volta. E os sons da poesia de Narciso de Andrade, quase sussurrada, como se fosse um segredo só nosso, muito bem guardado, a nos lembrar da importância do mar na vida de todos os santistas.
        Ecoam ainda os sons perdidos nos livros de histórias, que contam de batalhas e canhões, de piratas comandados pelo cruel Cavendish e dos sons do povo buscando os refúgios subterrâneos lendários, túneis, cavernas.
        Os sons imaginados da voz de José Bonifácio, o maior dos santistas, que ensinou como se constrói uma nação. Os sons que estão no ar, das vozes do Visconde de São Leopoldo, da cantiga dos escravos que resistiam no Quilombo do Jabaquara, da luta dos pioneiros abolicionistas, da voz de Bartolomeu de Gusmão, Martins Fontes e Vicente de Carvalho. E a voz rouca e rebelde de Pagu.
        Os sons do verão, as cigarras anunciando mais sol e calor do que podemos suportar, e os sons do vento noroeste, com cheiro de maresia e de chuva.
        São os sons de todos os santos, todas as lutas, todos os prazeres, todos os orgulhos, de todas as nossas faltas e culpas. Sons santistas, com certeza.
        Sons que se resumem no nome "vida".

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Os nomes dos comunistas que não puderam tomar posse


Lane Valiengo

         Como seria uma cidade em que a maioria dos vereadores fosse comunista? E se o Prefeito também seguisse a mesma linha? Certamente seria muito diferente. Se a época fosse a década de 40, por exemplo, provavelmente aquela situação poderia influenciar - e modificar - toda a história política de uma comunidade, por décadas e décadas seguidas, com reflexos até os tempos atuais.

         A cidade de Santos quase passou por esta experiência, comprovando a tendência de apoiar as correntes políticas progressivas. Na eleição presidencial de 2 de dezembro de 1945,  o mais votado em Santos foi o candidato do PCB, Yedo Fiúza, que obteve 45,06 % dos votos (sua votação em todo o País foi de apenas 9,17%). E o líder sindicalista Oswaldo Pacheco da Silva obteve 16.301 votos para a Câmara Federal, sendo o mais votado na cidade. Para o Senado, o mais votado foi Luiz Carlos Prestes, com 20.292 votos.

         Em janeiro de 1947, na eleição para a Assembléia Legislativa, dos seis mais votados, quatro pertenciam ao PCB (João Taibo Cardórniga, Zuleika Alembert, Leonardo Roitman e Rafael Sampaio Filho). O mais votado foi o professor Taibo Cardórniga, com 7.992 votos. Para o Governo do Estado, o candidato da coligação PSP/PCB, Adhemar de Barros, alcançou 26.856 votos (61,1%).

         Apesar da forte campanha anticomunista na cidade, Santos passou a ser conhecida como a Cidade Vermelha.

         Em 1947, acreditava-se que o portuário Leonardo Roitman, presidente do Sindicato dos Empregados nos Serviços da Administração Portuária, se elegeria prefeito. Mas as eleições foram suspensas: Santos teve sua autonomia cassada e continuaria a ter somente interventores, fato que se repetia desde 1937, quando o Estado Novo extinguiu todos os legislativos.

         Citado por Alcindo Gonçalves em "Lutas e Sonhos - Cultura Política e Hegemonia Progressista em Santos", Roitman, em depoimento feito em 1980, afirmou que só não foi eleito prefeito porque cassaram a autonomia. "Porque eles viram o risco de um trabalhador ser eleito prefeito da cidade".

         Mas na eleição do dia 9 de novembro de 1947 para a Câmara de Vereadores, a população votou maciçamente nos candidatos comunistas, que se abrigavam no PST - Partido Social Trabalhista, pois o Partido Comunista Brasileiro fora considerado proscrito, tendo seu registro cassado. Os chamados "candidatos de Prestes" fizeram 28% dos votos.

         Leonardo Roitman foi o mais votado, com 2.198 votos.

         De um total de 31, o PST elegeu 14 vereadores, alcançando        9.557 de um total de 35.755 votos.  A legislação da época favoreceu o PST: oito candidatos foram eleitos diretamente e os outros seis entraram porque as sobras eram creditadas ao partido com maior número de votos.

         Os eleitos foram diplomados em 29 de novembro e o estivador José Félix da Silva, voz firme e decidida, discursou em nome de todos. O PST fez uma aliança com o PSB, que tinha dois representantes, e teria maioria na Câmara.

         Na véspera da posse, 31 de dezembro, foi decretada a anulação dos votos dados aos comunistas.

         Em 3 de janeiro de 1948 ocorreu a primeira sessão da Câmara na Sala Princesa Isabel (o novo Paço Municipal foi inaugurado em 1939 e a Câmara fora dissolvida em 1937), com a posse de 31 vereadores, incluindo os 14 suplentes que ocuparam a vaga dos comunistas. Entre eles, Silvio Fernandes Lopes, que mais tarde se elegeria Prefeito com o apoio exatamente das forças progressistas.

         Mas o que chama a atenção é que os nomes dos 14 eleitos não constam dos livros de história, em sua grande maioria (a exceção do ensaio "Jubileu da Câmara Vermelha", do jornalista e historiador Paulo Matos, 1997), nem dos sites oficiais. Não se conta a história deles, não se faz justiça aos homens que a população elegeu mas foram impedidos de assumir. Não foram colocados em nenhuma galeria os seus retratos.

         Nomes que poderiam ter dado à política santista uma face diferente, com característica diversas.

         Foram esse os eleitos em 1947:

         Leonardo Roitman

         Vitório Martorelli

         Manoel Ferreira

         José Felix da Silva

         João da Conceição

         Paulo dos Santos Cruz

         Nelson de Toledo Pizza

         Manoel Teixeira Chaves

         José Reinaldi Simei

         José Alonso Nunes

         Aquilino Camino

         Francisco Rodrigues Dias

         Benedito de Almeida

         Manoel Dias Veloso, o Flor da Praia.

Constatações ligeiras 3


Lane Valiengo

         A família de Sosígenes e de Sosígenes Júnior é grande.

         Ruthiana está infeliz.

         Adlai está muito feliz.

         Blandina não deixou filhos.

         Thleiyce perdeu a mãe muito cedo.

         Kayob passa pela mesma tristeza.

         Guimário sofreu um acidente.

         Mínas é um grego santista

         Sidevair passa por pequenos problemas.

         Valdiane vai casar.

         A filha de Univaldo também vai.

         Delice vai ganhar uma nora.

         Falta pouco para a filha de Zairo dizer sim.

         Francicleudo espera pelo grande dia.

         Charline gosta de Biologia.

         Hyjalmar passou a vida ensinando e sendo querido.

         Auzinda viveu um ano de cada vez noventa vezes.

         Décito, lógico, é filho de Décio.

         Latife tinha dois filhos.

         Joanna Limaverde é bonita e madura.

         Kerr sempre ouve a mesma piadinha.

         Se fosse francês, Rychelly poderia ser um cardeal.

         Janinha não se sente diminuída, ao contrário.

         Fídia morava longe e foi mais longe ainda, com seus cem anos.

         Siberia nunca foi russa.

         O tempo andou bastante desde que Edene foi embora.

         Lindaura queria ser cremada. Foi.

         Sevino agora é só uma lembrança.

         Liberindo deixou sete filhos.

         Deizuita era filha de Vicença.

         Esora foi lembrada na missa.

         Senhorinha era viúva. E simpática.

         Zenilza é irmã de Ilioneto.

         Sante era abençoado desde pequeno.

         Silvarina ainda era nova.

         O planeta fez duas rotações completas desde que Enitercia foi para outro lugar.

         O filho único de Florenice está triste.

         Santilha não tinha filhos.

         Benigna tinha dois.

         Erisvaldo deixou o Júnior.

         Pedro recebeu dois sobrenomes: Banhos e Papais.

O nome do saneamento


Lane Valiengo
       
         Todos nós temos o oceano nas nossas vidas, como se aquele mar e aquelas praias fossem a extensão das ruas em que pisamos. O poeta Roldão Mendes Rosa um dia escreveu: “Nasci num porto do Atlântico/ Dia e noite as águas cantam/ Ouvimos o mar desde o berço/ No cais na praia no sono”. E o outro grande poeta, Narciso de Andrade, completa: “E no sono, tudo era sonho. Tudo era Santos”.
O oceano passa entre nós, talvez querendo participar mais dos nossos cotidianos, saber mais, ouvir mais. E assim ele vai. Crescendo e retraindo seus braços, através dos canais. Canais de drenagem, canais de vida, canais de salvação.
         Os canais de Santos não são somente obras de engenharia sanitária. Nem apenas as colunas do ordenamento urbano. Representam acima de qualquer coisa o início da nossa afirmação como cidade e como sociedade. São o marco da nossa cidadania e da nossa própria alma, a representação mais precisa daquilo que somos, da comunidade que aqui se formou.
         Nos dias atuais, as pessoas clamam por mais Saúde, saneamento, condições de vida, controle ambiental. Pois tudo é o ciclo histórico dando suas voltas: Santos, no quarto final do Século XIX, também precisava de tudo isso. E precisava por uma questão de sobrevivência não só das pessoas, dos trabalhadores. Mas para a sobrevivência da própria Cidade. Por isso, o nome do saneamento só poderia ser Saturnino de Brito, o homem que projetou e construiu os canais de Santos.
         Quando os trens de ferro aqui chegaram, em 1868, com a inauguração da primeira ferrovia, o comércio do café fez de Santos uma cidade que crescia a taxas impressionantes: entre 1886 e 1900, o índice foi de 223%. Em 1872 existiam 9.151 moradores. Em 1900 eram 50 mil e o censo municipal de 1913 apontava 88.967 habitantes.
         Mas o custo social deste crescimento era terrível. Santos era considerada uma das cidades mais insalubres do mundo, com taxas assustadoras de mortalidade. Entre 1889 e 1897 nasceram 810 crianças mas foram registrados 2.574 óbitos. Incluindo os estrangeiros, morreram de 1891 a 1895 mais de 5.700 pessoas.
         A causa: a febre amarela. Que chegou pelo Porto.
         A cada verão as tragédias repetiam-se. Em 1889 deu-se a grande epidemia. E ainda havia a varíola, a tuberculose, a malária e a peste. Na última década do século, morreram aqui mais de 22 mil pessoas.
         Trabalhar no cais era um bom negócio. Mas viver perto do cais não era. Não havia moradia suficiente. As casas abandonadas por quem fugia da febre e da peste viraram habitações coletivas. Pagava-se pouco mas as epidemias encontravam ambiente propício aonde as pessoas viviam amontoadas, em cubículos.
         E até hoje não conseguimos acabar com os cortiços...
         A alma do poeta sabe sentir de forma especial o que se passa com os mortais. E Roldão disse: “Ouve e aprende a cidade real./ Ela não é apenas a rua em que passas/ a caminho de casa, nem a casa em que moras/ Nem os telhados vistos do alto./ A cidade é o conhecimento de suas faltas e lutas...”.
         E a Cidade foi literalmente à luta. Sanear era preciso, era essencial. O País necessitava de um Porto sadio. E lá vieram os engenheiros e seus planos. E aqui criaram uma Cidade de verdade, para substituir o amontoado insalubre que imperava. O francês Voillot descreveu os horrores que presenciou. O frete de mercadorias encarecia por causa dos riscos. Hoje a doença é outra, é de logística. O americano Estevan Fuertes foi chamado para projetar o saneamento geral de Santos. O esgotamento da Cidade foi planejado por José Rebouças e reformulado por Saturnino de Brito.
          Foram construídos 80 quilômetros de rede e mais 17 quilômetros de canais de superfície, para as águas pluviais, drenando assim as áreas pantanosas. Ao mesmo tempo o cais era construído. Riachos foram canalizados ou aterrados próximo ao Centro. Combatia-se assim a proliferação do mosquito transmissor da febre amarela, talvez parente próximo do mensageiro da nossa atual dengue. Com carta branca, a Comissão Sanitária criada pelo Governo do Estado tornou-se uma espécie de poder paralelo. Ao longo da História, Santos certamente viveria outros momentos semelhantes.
         Mas vamos ser claros: o saneamento que nos salvou foi feito a partir de interesses econômicos, do comércio exterior. E não como alguma espécie de preocupação unicamente com a Saúde.
         Ao mesmo tempo, o saneamento e a promoção de condições dignas de Saúde e sobrevivência deram a Santos a sua maioridade, a sua afirmação como Cidade. Como escreveu o estudioso Wilson Roberto Gambeta, houve a desacumulação da pobreza, em contraponto à tentativa de disseminar a pobreza acumulada, representada pela dispersão da população pela periferia.
         Os espaços urbanos alargaram-se e passaram por nova distribuição. A campanha sanitária venceu. Talvez, hoje, precisaremos iniciar uma luta semelhante. A vantagem é que hoje, mais de cento e cinco anos depois, temos os canais. E a cidadania.
         Em tempo: segundo Candido Figueiredo, em "Novo Dicionário da Língua Portuguesa", Saturnino significa o mesmo que saturnal; relativo ao chumbo e seus compostos".
         Sim, foram tempos de chumbo e o engenheiro era de ferro.

O nome da primeira vereadora


Lane Valiengo

         O nome da primeira vereadora eleita em Santos era de uma fluminense: Zeny de Sá Goulart. Nascida em Niterói, em 26 de março de 1882, faleceu em Santos em 5 de setembro de 1960.

         Em 1888 foi para São Paulo, com a transferência de seu pai, que era engenheiro. Formou-se professora na Capital paulista, na Escola Modelo, bairro da Luz, em dezembro de 1900. Depois de algum tempo, foi deslocada para a cidade de Amparo, aonde conheceu o funcionário público Mauro Goulart Penteado, com quem se casou.

         Em 1904, o casal veio morar em Santos. Lecionou em diversas escolas, incluindo a Cesário Bastos, Visconde de São Leopoldo, Liceu Feminino, São José e Coração de Maria.

         Integrante do Conselho Municipal da União Democrática Nacional – UDN -, elegeu-se vereadora em 1936. O mandato, porém, durou somente de agosto de 1936 a novembro de 1937, pois o Estado Novo, por meio de uma Carta Constitucional, fechou todos os legislativos do País, extinguindo os mandatos. No caso das câmaras municipais, essa situação iria até 1947.

        Zeny disputou a eleição de novembro de 1947, ficando como suplente da UDN. Assumiu definitivamente a cadeira de vereadora com a renúncia de Frederico de Figueiredo Neiva.

         Faziam parte da Câmara, em 1937, juntamente com Zeny, nomes como João Carlos de Azevedo, Antonio Ezequiel Feliciano, Waldemar Carneiro Leão, Iguatemy Martins, André Freire, Osório de Souza Leite, Francisco de Barros Mello, João Rocha e Silva, Nicanor Ortiz, Alberto Moraes Barros, Eduardo Vitor Delamare, Mariano de Laet Gomes e Carlos Pacheco Cyrillo.

         Depois da pioneira Zeny, foram vereadoras em Santos: Graciana Miguel Fernandes (suplente, assumiu com o falecimento de Alfredo das Neves, em 1960; e assumiu também definitivamente  em abril de 1981, com a morte de Antonio Moreira Coelho); Hilda Augusto de Souza (1969/1973); Telma de Souza (filha de Hilda, 1983/1985; 2009/2011); Gemma Rebelo (1985/1988); Maria do Perpétuo Socorro Albuquerque Mattos (1993/1996); Suely Maia (1889/1992; 1993/1996); Mariangela Duarte (1993/1995); Maria Lucia Prandi (a primeira e única mulher, até hoje, a ser Presidente da Câmara, 1993/1995); Luzia Neófiti de Andrade (2001/2003, falecida em 2003); Cassandra Maroni Nunes 1997/2000; 2011/2004; 2005/2008; 2009) Suely Morgado 1997/2000; 2001/2004; 2005/2008) e Sandra Regina Arantes do Nascimento Felinto (2001/2004; 2005/2006, falecida em 2006).

         Atualmente, a única vereadora é Cassandra Maroni Nunes. Foram eleitas deputadas, estaduais e/ou federais, Telma de Souza, Maria Lucia Prandi e Mariangela Duarte.

         A professora Zeny é patrona da cadeira nº 38 da Academia Feminina de Ciências, Letras e Artes de Santos.