sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O nome do filho que é uma verdadeira mãe

Lane Valiengo

                   O nome dele é valter hugo mãe, assim só com minúsculas, como ele exige. Os títulos dos livros que escreveu também sempre aparecem em minúsculas. Mas a obra deste escritor português de 40 anos é maiúscula, sem dúvida. Mãe é seu sobrenome, de verdade, desde que nasceu em Henrique de Carvalho (atual Saurimo), em Angola. Passou a infância em Paços de Ferreira, interior de Portugal e em 1980 mudou-se para Vila do Conde. Formado em Direito, fez pós-graduação em Literatura Portuguesa.
                   Vencedor do Prêmio José Saramago em 2006, com "o remorso de baltazar serapião", esteve no Brasil em junho de 2011, quando foi um dos principais e mais festejados nomes da Flip - Festa Literária Internacional de Parati. Além de escritor (romancista e poeta), hugo mãe é editor, artista plástico, compositor, cantor e DJ.
                   Seu livro mais recente é "a máquina de fazer espanhóis". Entre suas principais obras estão "o apocalipse dos trabalhadores", "o nosso reino", "o remorso de baltazar serapião", "as mais belas coisas do mundo", "o rosto", "a história do homem calado" e "a verdadeira história dos pássaros".
                   Ao comentar "serapião...", hugo mãe disse o seguinte: "Destituir alguém do direito ao nome é anular a pessoa por completo. Transformá-la num animal indiferenciado. Quando era novo havia um rapaz deficiente mental a viver perto de minha casa e eu sempre perguntava o nome dele aos familiares, e eles nunca disseram. Creio que julgavam estar a protegê-lo, para que ninguém soubesse quem era o tolo da rua. Eu pensei que era uma violência roubar o nome dele assim. Porque eu queria gostar dele e parecia não poder gostar dele de modo algum, porque ele estava guardado para não ser ninguém na sociedade. Esse efeito ficou em mim e acredito que tenha ficado muito na origem do que decido para a família do romance. Por outro lado, escolho exatamente uma vaca  num jogo com um romance português intitulado "Nome de guerra", do grande Almada Negreiros. Ele disse que os animais deviam ter o mesmo sobrenome das famílias a que pertenciam, para que soubesse toda gente a quem devolver, por exemplo, uma vaca, se estivesse perdida no caminho. No meu livro fiz o contrário. A vaca deu o nome à família e ajudou a sublinhar esse percurso longo que falta para fazer para uma humanidade mais efetiva".

         Detalhe importante: apesar do sobrenome, não se pode dizer de forma alguma que se trata de um caso explícito de complexo de Édipo. Simplesmente porque não foi ele quem escolheu o seu nome, quando ele percebeu o nome já estava pronto, já estava na sua vida. 

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